Postado em: 12 de abril de 2017
NOVO HORIZONTE PARA O SEGURO AUTO

Um setor que já viveu um cenário de “céu de brigadeiro” precisa se reinventar. Até pouco tempo atrás era comum o seguro de automóvel figurar como negócio prioritário e insubstituível na carteira dos corretores de seguros brasileiros. Hoje, não se pode dizer a mesma coisa: este seguro continua obviamente na liderança das vendas, mas a necessidade de ampliação do portfólio veio acompanhada de um novo perfil de consumidores, ávidos por diversificar seu leque de proteção.

De um modo geral, a expectativa é de que o mercado sinalize recuperação das vendas a partir do segundo semestre deste ano em função de dois fatores básicos: a melhora da economia e a queda mais acentuada das taxas de juros. A recuperação anunciada em 2016 é considerada tímida, longe do auge do setor, em 2012: naquele ano, as vendas de veículos leves no Brasil somaram 3,6 milhões de unidades. Segundo fontes oficiais, o índice de comercialização de automóveis e de comerciais leves recuou quase 10% em dezembro último, provocando uma queda anual de 20% em 2016.

Especialistas não têm dúvidas em dizer que este será o quarto ano seguido de retrocesso nas vendas de carros. Em 2016, as vendas totais somaram 1,989 milhão de unidades, baixa de 19,8% sobre o ano imediatamente anterior. Em dezembro, as concessionárias comercializaram 119,2 mil unidades. Na margem, o resultado mensal subiu 14,7% sobre novembro, o que fez dezembro fechar com o melhor resultado após os 22% obtidos na transição de fevereiro para março.

Tal cenário já foi enfatizado à opinião pública pelo vice-presidente da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Luiz Pomarole. “No ano passado, o seguro de automóvel enfrentou sérios problemas com a queda das vendas de veículos, ponto de partida dos seguros novos”, ressaltou. Contudo, segundo ele, 2017 aponta desafios importantes como a estratégia de distribuição regional a partir da criação de novos produtos, sobretudo descentralizar a oferta fora do eixo Rio-São Paulo.

A criação de novos produtos, na ótica de Pomarole, deve ser trabalhada em regiões com menos problemas de furto e roubo e carente de  outras necessidades, como a de reparação e de serviços diferenciados. O fato é que apenas um terço da frota nacional possui seguro. É um número que persiste há alguns anos. Uma boa alternativa é o seguro popular, propiciando a tão sonhada proteção a consumidores de menor poder aquisitivo e abrindo um mercado de reposição de peças e de oficinas referenciadas e adequadas ao atendimento deste usuário.

De qualquer maneira, alguns dos principais dirigentes do setor acreditam piamente na recuperação deste tão importante mercado em 2017. Na análise do presidente do Sindicato dos Corretores de Seguros no Estado de São Paulo (Sincor-SP), Alexandre Camillo, o decréscimo de apenas 1,6% no volume de prêmios do seguro auto no último ano é um “feito da categoria”. Até porque, em sua opinião, no mesmo período, a venda de veículos caiu 40%. No entanto, ele reconheceu, em recente almoço no Clube dos Corretores de Seguros de São Paulo (CCS-SP), que, no momento, algumas opções para a diversificação da carteira estão prejudicadas pela crise.

Cálculos da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) apontam também redução no volume de prêmios no ano passado, da ordem de 2,4% em relação a 2015, somando R$ 31,7 bilhões. Com isso, a participação do seguro no setor caiu de 14,6%, no ano retrasado, para 13,3% em 2016. Mas, na avaliação do presidente Márcio Coriolano, a preocupação é passageira: “Com a provável recuperação de renda e baixa da inflação, devemos ter maior produção e venda de automóveis, fora o Seguro Auto Popular, regulamentado no ano passado. Esses dois fatores devem ajudar o mercado de seguros de automóveis a voltar a crescer”.

Mudar e modernizar

O diretor de marketing do Sincor de Amazonas e Roraima (Sincor AM-RR), Victor Sergio Pereira do Nascimento, acredita que, no âmbito macroeconômico, a recuperação da economia em 2017 não determinará um aumento na contratação do seguro de automóvel. Há duas razões que explicam a posição de Nascimento: a economia cíclica – “tanto o declínio e o apogeu econômico têm um tempo, são como as marés” – e a “comoditização” da carteira incorporada anualmente no rol de despesas do consumidor.

Para o presidente da União dos Corretores de Seguros (UCS), Marcelo Guirao, está na hora de mudar, descomplicar e modernizar este tipo de proteção. “Hoje, a maneira de se contratar o seguro de automóvel está atrelada a formas arcaicas de preenchimento de complicados formulários, cláusulas complexas e, muitas vezes, contraditórias, e a utilização de sistemas lentos e custosos. Além disto, a tarifação leva em conta mais a análise financeira do que o hábito de condução da pessoa”, salienta Guirao. Nascimento, por outro lado, faz o seguinte questionamento: “Quando exatamente corretores e seguradoras irão otimizar os demais ramos (pessoais e patrimoniais) com maior valor agregado, distanciando estes das commodities?”

Já o presidente da UCS raciocina em outra direção: mesmo no seguro tradicional é preciso pensar em mudanças radicais. “Com o avanço da tecnologia, as seguradoras precisam solicitar menos informações, trabalhar com no máximo cinco ou seis questões essenciais como, por exemplo, CPF, chassi, placa, CEP de pernoite/utilização diária, e as coberturas desejadas. Neste caso, a telemetria também seria um bom avaliador de hábitos para tarifação”.

Há certa unanimidade quanto aos benefícios da tecnologia incorporada ao seguro. O vice-presidente da FenSeg, Luiz Pomarole,  menciona a digitalização. “É preciso entender que as novas gerações querem interação com corretoras e seguradoras de forma digital, sobretudo pela internet, que acelera o processo de comunicação”, lembra Pomarole, acrescentando a importância da fluidez no fluxo das informações. Guirao reitera que o investimento em tecnologia facilita a tarifação, incluindo o corretor em sistemas de prospecção digital e simplificando processos transferidos para dentro das corretoras.

Proteção para 20 milhões de veículos

Diante da recuperação da economia brasileira e a previsão na queda do volume de prêmios no seguro tradicional, a Superintendência de Seguros Privados (Susep) anunciou em abril de 2016 as regras e os critérios para a operação do Seguro Auto Popular no país, por meio da Resolução nº 336 do Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP). A implementação da norma, segundo estimativas da CNseg, representa a possibilidade de suprir um mercado potencial de cerca de 20 milhões de veículos (carros, motocicletas, ônibus e caminhões), com idades entre cinco e 20 anos de uso, sem qualquer tipo de cobertura.

A principal virtude desta modalidade de seguro popular reside na utilização de peças usadas, provenientes de empresas de desmontagem para reparo dos veículos, o que torna o preço mais atrativo. Isso só foi possível graças à Lei 12.977, de maio de 2014, que regulamentou os desmontes de veículos em todo o território nacional. “Por este seguro ser mais abrangente, esperamos uma diminuição no valor das apólices e, com isso, mais veículos e consumidores estariam contemplados pela cobertura”, explica o responsável pelas operações no Brasil do Grupo Dekra, Mario Cassio Mauricio.

Estima-se que o preço do novo produto deva ser 30% menor em comparação ao seguro tradicional e a economia se deve ao uso das peças usadas. Para entender a necessidade dessa redução de preço, sobretudo para carros com mais de cinco anos, observa-se o seguinte: enquanto um seguro para um carro novo custa em torno de 5% a 6% do valor do automóvel, este índice sobe para 15% no caso dos veículos com cinco anos de uso.

O presidente da FenSeg, João Francisco Borges da Costa, ressalta que o mercado e a federação veem no Seguro Auto Popular “a alternativa que permitirá o acesso da parte da população que não possui condições financeiras para contratar um seguro normal de automóveis”, e admite: “O desafio é significativo”. Na sua visão, são necessários ajustes que devem ser realizados na Resolução 336 e que estão sendo analisadas pela Susep. João Francisco enfatiza a necessidade de ampliação da base de peças a serem utilizadas pelo mercado, incluindo, além das usadas, as peças novas que atendam às especificações dos fabricantes de veículos, uma vez que ainda não existe volume de peças usadas disponíveis para atender às futuras demandas.

O produto e as seguradoras

Um ano após o anúncio das regras para operação do seguro, apenas duas empresas operam o produto. Uma delas é a Azul Seguros, que lançou, em dezembro passado, o Azul Seguro Auto Popular – modalidade que propicia redução de um terço, em média, do valor do seguro tradicional. É destinado aos automóveis com importância segurada de até R$ 60 mil, com data de fabricação a partir de 2012 ou mais. O produto, que pode ser parcelado em até dez vezes iguais, oferece cobertura básica para colisão, roubo, furto, indenização de 80% a 90% da tabela Fipe, assistência 24 horas e guincho em até 100 quilômetros.

A Azul também oferece coberturas de Responsabilidade Civil Facultativa (RCF), com indenização de R$ 25 mil; e opcional de Danos Morais e Estéticos Facultativo, com indenização de R$ 5 mil ou R$ 10 mil. A utilização de peças de desmontagem e das novas não originais pelas seguradoras deve ser comunicada aos segurados. “A comunicação será clara, com informações suficientes sobre a procedência e a adequação da peça no reparo do automóvel”, orienta o diretor da Azul Seguros, Felipe Milagres.

A Tokio Marine também já começou a trabalhar com este nicho. A companhia lançou, em dezembro, sua linha de seguros populares: Tokio Marine Auto Popular, Utilitário Carga Popular e Caminhão Popular, que chegam para ampliar o portfólio. Além de veículos de passeio, também estão disponíveis veículos utilitários de carga e caminhões nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro e futuramente para as demais regiões.

“O foco do Auto Popular Tokio Marine é a cobertura de colisão e incêndio para danos totais ou parciais e assistência 24h completa. Nesta configuração inicial o seguro pode ficar até 50% mais barato do que os seguros tradicionais. Como opcionais, a seguradora disponibiliza ainda a cobertura compreensiva (roubo e furto, colisão e incêndio), danos a terceiros (RCF-V materiais e corporais), acidentes pessoais de passageiros (APP), além das diversas opções de carro reserva e serviços de vidros, que incluem até reparo de para-choque e arranhões na pintura, entre outros benefícios”, explica o diretor-executivo de Produtos Massificados Marcelo Goldman.Além de todos os diferenciais, os clientes poderão contratar o percentual da tabela Fipe entre 80% e 90%, com a facilidade no pagamento em até seis vezes sem juros ou 12 vezes fixas.

Uma revolução está a caminho

A tecnologia está revolucionando o mercado de seguradoras e promete personalizar ainda mais os seguros de carros. Hoje, as empresas consideram idade, sexo, tempo de habilitação, infrações de trânsito e histórico de acidentes do motorista na hora de precificar o produto, mas, em um futuro próximo, o panorama mudará radicalmente.

Segundo a consultoria Gartner, até 2020, 250 milhões de automóveis estarão conectados à chamada Internet das Coisas ou, em inglês, Internet of Things (IoT), o que fornecerá às companhias um rico universo de dados para analisar riscos e perfis de contratação, precificar de maneira mais específica e oferecer coberturas altamente personalizadas. E, com isso, baratear o seguro de acordo com cada perfil.

A instalação de rastreadores, por exemplo, exigida por algumas seguradoras, tende a se tornar desnecessária, uma vez que veículos com tecnologia de geolocalização já permitem o seu rastreamento. Além da eliminação desse custo, será possível rastrear toda a frota segurada, e não apenas automóveis com perfil de maior risco. A tecnologia empregada em larga escala não só facilitará a localização de veículos roubados, mas também o combate às fraudes.

Para o presidente da Aconseg-RJ, Luiz Philipe Baeta Neves, é importante pensar sobre o que o mercado de seguros está fazendo para se antecipar à nova realidade. “Há o desafio de adequar e desenvolver produtos utilizando essas informações. Algumas seguradoras já estão atentas às novas tecnologias e utilizam dados, por exemplo, como as rotas por onde o motorista dirige. É uma vantagem para o cliente, já que o valor da apólice se torna mais preciso e não determinado apenas pela faixa etária ou sexo do motorista”, explica.

Ainda não se conhece a fundo o potencial da Internet das Coisas, mas ela promete ser um divisor de águas no modo de vida das pessoas, segundo uma corrente de opinião. A expectativa é de que, com a consolidação dessas tecnologias, o caminho estará aberto para a ampla adoção dos carros autônomos, embarcados com os chamados dispositivosVehicle-to-Vehicle (V2V), capazes de se comunicar entre si e com estradas inteligentes. O advento deverá provocar uma revolução na subscrição de riscos dos veículos, já que não haverá motorista e novos parâmetros precisarão ser estabelecidos. (Carlos Alberto Pacheco)

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